Sintomas #2

Ela olha pela janela e o vê chegando e então percebe que os velhos e conhecidos sintomas estão se apoderando do seu corpo… ele entra na sala e ela, disfarçadamente, confere as mãos. Estão tremendo. Ela tenta ignorar, há outras coisas mais importantes acontecendo para ela lidar naquele momento. De repente ele vem em sua direção, pega sua mão e pergunta se ela o chamou.

– não, não chamei…

Mas ela pensou em chamar. Precisava de ajuda naquele momento e aconteceu que, voluntariamente, ele acabou ajudando.

Tudo certo, ela sentou-se e percebeu que as pernas tremiam e o coração também disparava. Em outro momento ela ficaria em pânico devido ao aparecimento desses sintomas na presença dele outra vez e se sentiria uma farsa por já ter dito a todos que aquilo fora superado. Mas acontece que já viveu tudo isso antes e já não mais confundia, dessa vez já não era amor, era ansiedade pré seminário.

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Aula #2

Quarta-feira véspera de feriadão. Estava saindo da aula no calor do meio dia, só pensando em ir para casa.

Já estava me afastando das salas quando um professor falando em voz alta capturou minha atenção:

– Quando estou apaixonado meu coração dispara.

Tentei ouvir um pouco mais, mas essa foi a única frase que consegui escutar e, na verdade, foi o suficiente. Gratidão pelas coisas simples e pelas pequenas doses de poesia que insistem em existir, mesmo no caos universitário.

 

Quando vi, parado ali,
Um cego a se questionar porque
Não via só a luz do sol
Como a cor do céu

Direcionou o olhar a mim
Quando evitava o encontro ao seu
E com tristeza no falar
Também me perguntou:
“Será mesmo, realmente
Amarelo o sol, e azul o céu
Por que não ser lilás, vermelho
Ou quem sabe seja apenas som?”

Agoniado ao pensar
No que o cego estava a falar
Olhos azuis a escurecer
Meu Deus, o que vai ser?

Sentei, chorei e compreendi
Que não havia só um cego ali
E perturbado ao dizer,
Escute aí você:

“Quem é que não enxerga aqui
Será eu ou você que não percebe?”

No ônibus #2

Ontem saí de casa rumo a minha primeira aula do semestre. Dobro a esquina, vejo um ônibus passando no ponto. Por um segundo, me aflijo, até perceber que estava vazio demais para ser o ônibus da universidade. Por desencargo de consciência, ao chegar no ponto, pergunto qual era o ônibus. A resposta ”cidade nova” confirma minha teoria.
Minutos depois, o Uefs chega, mais cheio que uma lata de sardinha. Respiro fundo. Tudo bem, não vai ser o primeiro nem o último ônibus lotado que pegarei. Fico na porta, me equilibrando nos degraus.

No ponto seguinte, o motorista para e aí sim me desespero com o que vejo: uns 5 ou 6 estudantes também desesperados querendo entrar.
”Impossível”, digo, mas sei que o problema, na verdade é que as pessoas ficam concentradas no meio, ao invés de ir para o fundo do ônibus. O motorista reclama com o pessoal, pedindo para que colaborem.

Subo uns degraus, mas o único espaço vazio que encontro é próximo a cadeira dele, mas não posso ficar em pé, reta. Tenho que ficar encostada de mal jeito na área do motorista e segurando a barra™ como uma dançarina de pole dance. Segunda-feira já começou daquele jeito. Ao longo do trajeto só consigo pensar que qualquer freada brusca eu caio em cima do motorista, ele vai perder a direção e vamos todos morrer. Fico olhando na janela pra ver o quanto falta pra chegar. Outro pensamento que me vem a mente é que se o físico que um dia disse que ”dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço” ficaria bastante admirado ao ver que todo dia nos ônibus feirenses há a tentativa de quebrar esse paradigma.

Isaías 19

Quem olha para ela agora nem imagina o seu passado glorioso, cheio de riquezas. Egito  era a melhor, a potência mundial. Achava que podia tudo, que estava bem amparada pelos seus deuses. Estava… Até ficar frente a frente com Ele.

– Um Deus desconhecido, sem nome e sem rosto… Quem ele pensa que que é para se dizer mais poderoso que todos os meus deuses? – Ela se pergunta. O que ela não sabia era que Ele não pensa que é, Ele simplesmente é. Ela pagou caro por não acreditar. Foi confrontada uma, duas, três… dez vezes derrotada pelo Deus que defende escravos.

O tempo passou, ela se reergueu, superou, mas volta e meia ele aparecia em seus sonhos, como um fantasma do passado, como alguém misteriosamente atraente. Ela ouve seu nome outra vez e sente um frio na barriga. Faz tempo desde a última vez que se encontraram. Ela sabe que problemas estão por vir e está apavorada, não quer encontrá-lo. Pede ajuda aos seus protetores, mas nem eles têm coragem de se colocar no caminho Dele. Ela está desorientada.

De novo isso? Sem saída, ela precisa recorrer a Judá, sua antiga inimiga do passado, a protegida Dele, mas só em pensar nisso, já sente calafrios. Ela não era nada, apenas uma escrava sem valor, mas agora é uma nação de respeito.

– Seu Deus me feriu, mas ele é o único que tem condições de me ajudar… será que ele pode?

– Sim, com certeza! – A outra responde feliz, sem mais mágoas pelo passado.

Ela confia desconfiando, pois não sabe o que esperar. Não sabe se agiu certo pedindo a ajuda dele. Ele promete e realmente cumpre, trazendo a restauração solicitada. Não apenas com ela, mas com a Assíria, outra cujos dias de glória ficaram no passado.

– Isso não faz sentido… Ele ama Judá e a protege. Meus deuses nunca foram assim… Ele é rico, inteligente, poderoso e, no entanto, parece um simples jardineiro. Quem eu sou perto dele? Ninguém – Egito reflete, confusa, constrangida e ao mesmo tempo grata.

– Para mim, você é alguém – Ele responde como se tivesse ouvido seus pensamentos.

– Como é possível, depois de tudo que fiz? Não mereço esse amor…

– Não, mas você pode aceitá-lo.