Quando vi, parado ali,
Um cego a se questionar porque
Não via só a luz do sol
Como a cor do céu

Direcionou o olhar a mim
Quando evitava o encontro ao seu
E com tristeza no falar
Também me perguntou:
“Será mesmo, realmente
Amarelo o sol, e azul o céu
Por que não ser lilás, vermelho
Ou quem sabe seja apenas som?”

Agoniado ao pensar
No que o cego estava a falar
Olhos azuis a escurecer
Meu Deus, o que vai ser?

Sentei, chorei e compreendi
Que não havia só um cego ali
E perturbado ao dizer,
Escute aí você:

“Quem é que não enxerga aqui
Será eu ou você que não percebe?”

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No ônibus #2

Ontem saí de casa rumo a minha primeira aula do semestre. Dobro a esquina, vejo um ônibus passando no ponto. Por um segundo, me aflijo, até perceber que estava vazio demais para ser o ônibus da universidade. Por desencargo de consciência, ao chegar no ponto, pergunto qual era o ônibus. A resposta ”cidade nova” confirma minha teoria.
Minutos depois, o Uefs chega, mais cheio que uma lata de sardinha. Respiro fundo. Tudo bem, não vai ser o primeiro nem o último ônibus lotado que pegarei. Fico na porta, me equilibrando nos degraus.

No ponto seguinte, o motorista para e aí sim me desespero com o que vejo: uns 5 ou 6 estudantes também desesperados querendo entrar.
”Impossível”, digo, mas sei que o problema, na verdade é que as pessoas ficam concentradas no meio, ao invés de ir para o fundo do ônibus. O motorista reclama com o pessoal, pedindo para que colaborem.

Subo uns degraus, mas o único espaço vazio que encontro é próximo a cadeira dele, mas não posso ficar em pé, reta. Tenho que ficar encostada de mal jeito na área do motorista e segurando a barra™ como uma dançarina de pole dance. Segunda-feira já começou daquele jeito. Ao longo do trajeto só consigo pensar que qualquer freada brusca eu caio em cima do motorista, ele vai perder a direção e vamos todos morrer. Fico olhando na janela pra ver o quanto falta pra chegar. Outro pensamento que me vem a mente é que se o físico que um dia disse que ”dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço” ficaria bastante admirado ao ver que todo dia nos ônibus feirenses há a tentativa de quebrar esse paradigma.

Isaías 19

Quem olha para ela agora nem imagina o seu passado glorioso, cheio de riquezas. Egito  era a melhor, a potência mundial. Achava que podia tudo, que estava bem amparada pelos seus deuses. Estava… Até ficar frente a frente com Ele.

– Um Deus desconhecido, sem nome e sem rosto… Quem ele pensa que que é para se dizer mais poderoso que todos os meus deuses? – Ela se pergunta. O que ela não sabia era que Ele não pensa que é, Ele simplesmente é. Ela pagou caro por não acreditar. Foi confrontada uma, duas, três… dez vezes derrotada pelo Deus que defende escravos.

O tempo passou, ela se reergueu, superou, mas volta e meia ele aparecia em seus sonhos, como um fantasma do passado, como alguém misteriosamente atraente. Ela ouve seu nome outra vez e sente um frio na barriga. Faz tempo desde a última vez que se encontraram. Ela sabe que problemas estão por vir e está apavorada, não quer encontrá-lo. Pede ajuda aos seus protetores, mas nem eles têm coragem de se colocar no caminho Dele. Ela está desorientada.

De novo isso? Sem saída, ela precisa recorrer a Judá, sua antiga inimiga do passado, a protegida Dele, mas só em pensar nisso, já sente calafrios. Ela não era nada, apenas uma escrava sem valor, mas agora é uma nação de respeito.

– Seu Deus me feriu, mas ele é o único que tem condições de me ajudar… será que ele pode?

– Sim, com certeza! – A outra responde feliz, sem mais mágoas pelo passado.

Ela confia desconfiando, pois não sabe o que esperar. Não sabe se agiu certo pedindo a ajuda dele. Ele promete e realmente cumpre, trazendo a restauração solicitada. Não apenas com ela, mas com a Assíria, outra cujos dias de glória ficaram no passado.

– Isso não faz sentido… Ele ama Judá e a protege. Meus deuses nunca foram assim… Ele é rico, inteligente, poderoso e, no entanto, parece um simples jardineiro. Quem eu sou perto dele? Ninguém – Egito reflete, confusa, constrangida e ao mesmo tempo grata.

– Para mim, você é alguém – Ele responde como se tivesse ouvido seus pensamentos.

– Como é possível, depois de tudo que fiz? Não mereço esse amor…

– Não, mas você pode aceitá-lo.

 

Sobre pessoas e lugares (ou um texto carregado de saudades da minha vó)

Há lugares que marcam nossas vidas e eu sou daquelas que não consegue passar por um desses lugares sem me perder em recordações.

Se pego um ônibus que eu sei que passa pela rua Voluntários da Pátria, intencionalmente sento-me do lado esquerdo e fico observando as casas conhecidas, até ele passar na casinha verde, onde ela morava. A vontade é de descer do ônibus e ficar ali.

De repente, sou criança outra vez. Subo os degraus e bato na porta de vidro e grito “Vóooo” e escuto ela dizer que já vai. Com seu pequeno corpo inclinado para frente e seus passos vagarosos, ela demora para atravessar o corredor e é preciso ter paciência.

Ela chega na porta, abre, me vê e diz:

– Ô minha fia, mais quem tu veio?

Quando finalmente entro, vejo a sala da frente com as duas poltronas marrons. Sigo pelo corredor, vejo o seu quarto, o quarto de visitas e a sala de estar. Sento no sofá, ligo a TV. Ela me oferece comida. Impossível ir na casa dela e não comer alguma coisa. Se for hora do lanche, já sei o que ela vai me oferecer: batido (uma estranha merenda feita com ovo, farinha e açúcar, que eu jamais recusei.)

Vejo-a pegando um prato fundo. Ela se senta na cadeira, pega o garfo para  bater a clara, concentrada na tarefa. Me ofereço para colocar a gema, que ela bate com seus dedos enrugados segurando firme o garfo até misturar, depois duas colheres de farinha e, por fim, duas de açúcar. Tudo segundo sua orientação. Se minhas irmãs também estiverem ali, tenho que dividir com elas, mas se não, fico feliz em comer tudo sozinha.

Ela conversa, fala do dia, pergunta por alguém. Peço para ela me contar alguns casos e dou risada sempre como se fosse a primeira vez que estivesse ouvindo-os.

As lembranças são bem vivas em mim. Cada detalhe da casa verde da rua Voluntários da Pátria ainda está gravado, bem como a informação de que ninguém fazia uma frigideira de carne do sol (e outras comidas) tão bem quanto ela.

Volto a ser apenas eu, já jovem adulta, sentada no banco do ônibus. Chego em casa e as lembranças dela ainda estão ali, no retrato na estante da sala, na sua cama onde agora durmo, na cômoda ainda chamada de “cômoda de vó”, na vasilha de porcelana que ela ganhou do meu avô quando ainda eram noivos e que pegamos com todo o cuidado para não quebrar…

Após seis anos sem ela, seguimos nossas vidas, choramos por outra partida de alguém querido no mesmo dia em que ela se foi, mas nunca a esquecemos.

Por alguma razão, eu que faço uma imitação meia boca da voz do Bob Esponja, consigo imitar a sua e isso, às vezes nos ajuda a matar a saudade.

Há lugares que marcaram minha vida. Da mesma forma, há também pessoas… Pessoas como ela, que não só marcaram minha história, mas foram peça fundamental para que hoje eu estivesse aqui. A essas, tudo que posso dizer é muito obrigada. A ela, já que não posso lhe falar nada, me resta ficar com as nostalgia dos 16 anos que passamos juntas e esperar para dar-te um abraço (sem lágrimas!) quando aquele dia chegar.

 

 

 

Nostalgia

(Versinho que fiz à pedido da minha mãe)

Deitada na rede, vejo os galhos das árvores a balançar
Observo o dia partir e a noite chegar
Lembro do começo de tudo, quando não havia escuridão e a glória do meu Amado era o que iluminava toda a criação.

Ai, que saudades de tudo isso que nunca vivi, mas que certamente viverei!!!!!